EBITDA: o que é, como calcular e por que Buffett desconfia dele
O EBITDA é o lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização — em inglês, Earnings Before Interest, Taxes, Depreciation and Amortization. Ele existe para responder uma pergunta específica: quanto de caixa a operação gera, ignorando como a empresa se financia, em que país paga imposto e qua
Por Rafael Dagostin ·
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O EBITDA é o lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização, em inglês, Earnings Before Interest, Taxes, Depreciation and Amortization. Ele existe para responder uma pergunta específica: quanto de caixa a operação gera, ignorando como a empresa se financia, em que país paga imposto e quanto seus ativos se desvalorizam no papel.
É a métrica mais usada em fusões e aquisições e em contratos de dívida, e a mais criticada por quem acha que ela esconde um custo bem real.

Como se calcula
Há dois caminhos que chegam ao mesmo lugar.
A partir do EBIT (o mais direto):
EBITDA = EBIT + Depreciação + Amortização
A partir do lucro líquido (quando você só tem a última linha):
EBITDA = Lucro líquido + Juros + Impostos + Depreciação + Amortização
No Brasil essa conta não é livre. A Resolução CVM 156/2022, de 23 de junho de 2022, define no art. 3º como a companhia aberta precisa calcular o EBITDA que divulga: resultado líquido do período acrescido dos tributos sobre o lucro, das despesas financeiras líquidas das receitas financeiras e das depreciações, amortizações e exaustões.
Duas diferenças em relação à fórmula de bolso acima: a norma usa o resultado financeiro líquido, não apenas os juros pagos, e inclui a exaustão — o que muda o número em mineração, óleo e gás e florestal, onde ela é a maior parte do desgaste do ativo.
A depreciação e a amortização não aparecem separadas na DRE de todas as empresas. Quando não aparecem, você as encontra na Demonstração dos Fluxos de Caixa, na primeira seção, somadas de volta ao lucro.
E o "EBITDA ajustado"? Ao contrário do que se lê por aí, ele não é terra sem lei. O art. 3º proíbe excluir itens não recorrentes, não operacionais ou de operações descontinuadas do EBITDA da regra. A companhia pode divulgar um número ajustado, mas o art. 4º da mesma resolução de 2022 impõe condições: publicá-lo ao lado do EBITDA do art. 3º, usar apenas itens que constem dos registros contábeis do período, descrever a natureza, a forma de cálculo e a justificativa de cada ajuste, e identificar o número com o termo "ajustado" (art. 5º).
Na prática isso vira uma régua para ler release: EBITDA ajustado sem a conciliação ao lado, sem a lista do que saiu ou sem o número não ajustado é divulgação fora do que a CVM pede. E o cuidado que uma companhia tem com essa exigência já diz algo sobre ela.
Por que ele existe
Imagine comparar duas empresas idênticas na operação. Uma é financiada com dívida, a outra com capital próprio. Uma opera num regime tributário favorecido, a outra não. Uma comprou as máquinas há dez anos e já depreciou quase tudo, a outra acabou de investir.
Os três lucros líquidos vão ser muito diferentes. Mas a operação das duas é igual. O EBITDA remove exatamente essas três fontes de ruído, e é por isso que analistas o usam para comparar empresas de países e estruturas diferentes.
É também por isso que ele aparece em covenants de dívida: o banco quer saber quanto caixa a operação produz para pagar juros, antes de descontar os próprios juros.
A crítica de Buffett, e por que ela procede
Warren Buffett e Charlie Munger criticam o EBITDA de forma consistente. O argumento, resumido: a depreciação é a despesa mais real que existe, só que foi paga antes.
Quando uma mineradora deprecia R$ 1 bilhão por ano, isso não é ficção contábil. Aquelas máquinas vão se desgastar e precisarão ser substituídas. Ignorar a depreciação é fingir que a empresa opera com equipamento eterno.
O teste prático é simples: compare a depreciação anual com o capex de manutenção (o investimento necessário só para continuar operando no mesmo nível).
- Se o capex de manutenção é próximo da depreciação, o EBITDA está superestimando a geração real de caixa naquele valor
- Se a empresa tem poucos ativos fixos, software, serviços, marcas, a distorção é pequena e o EBITDA se aproxima do caixa
Por isso o EBITDA engana mais em setores de capital intensivo: energia, telecom, mineração, siderurgia, transporte.
Onde ele é útil de verdade
Alavancagem. A relação Dívida Líquida/EBITDA é o padrão de mercado para medir endividamento, e o denominador aqui faz sentido: é a capacidade de geração de caixa que vai pagar a dívida.
Comparação setorial. A margem EBITDA permite comparar a eficiência operacional de concorrentes com estruturas de capital muito diferentes.
Valuation de firma. O EV/EBITDA relaciona o valor da empresa inteira com a geração operacional, e é o múltiplo mais comum em M&A.
Onde ele não serve
Bancos e seguradoras. Em instituições financeiras, juros são a matéria-prima do negócio, não um custo de financiamento à parte. Excluí-los destrói o sentido da métrica. Para bancos, use P/VP e ROE.
Empresas com capex pesado e recorrente. Já discutido: o EBITDA superestima o caixa disponível quando a manutenção consome boa parte dele.
Como proxy de lucro. EBITDA não é lucro. A empresa ainda vai pagar juros e impostos de verdade, com dinheiro de verdade.
Perguntas frequentes
EBITDA e geração de caixa são a mesma coisa?
Não. O EBITDA ignora a variação do capital de giro e todo o investimento. Uma empresa pode ter EBITDA alto e queimar caixa, se estiver empatando dinheiro em estoque e recebíveis ou investindo pesado. Quem responde essa pergunta é o fluxo de caixa livre.
O EBITDA é regulado pela CVM?
Sim, quando a companhia aberta opta por divulgá-lo. A divulgação é voluntária, mas a Resolução CVM 156/2022 define a fórmula (art. 3º), exige a conciliação com as demonstrações contábeis (art. 2º, § 2º), proíbe usar valores que não constem delas e determina que o número seja apresentado fora do conjunto completo das demonstrações (art. 8º). A empresa escolhe se divulga; a fórmula do número não ajustado não é escolha dela.
O que é EBITDA ajustado?
É o EBITDA excluindo itens que a empresa classifica como não recorrentes, reestruturações, baixas de ativos, despesas com processos. O ajuste é permitido pelo art. 4º da Resolução CVM 156/2022, com regras: vir identificado como "ajustado", acompanhado do número não ajustado, com a natureza e a justificativa de cada item excluído, e de forma consistente entre períodos (art. 7º). Sempre veja a conciliação e julgue se os itens excluídos realmente não se repetem.
Qual margem EBITDA é boa?
Depende inteiramente do setor. Varejo alimentar opera com margens de um dígito e isso é normal; software pode passar de 40%. A margem EBITDA só significa alguma coisa comparada a concorrentes diretos e ao próprio histórico.
EBITDA negativo é sempre ruim?
Significa que a operação consome caixa antes mesmo de juros, impostos e depreciação. Em empresa madura é sinal grave. Em empresa jovem em fase de investimento pode ser esperado, mas aí a pergunta passa a ser por quanto tempo o caixa disponível sustenta isso.
Conclusão
O EBITDA é uma ferramenta boa para uma pergunta estreita: como está a operação, isolada de financiamento, tributação e contabilidade de ativos.
O erro não é usá-lo. É tratá-lo como se fosse lucro ou caixa. Use-o para comparar operações e medir alavancagem, e confronte sempre com o capex e com o fluxo de caixa livre antes de concluir qualquer coisa sobre o dinheiro que efetivamente chega ao acionista.